Quando lemos o Novo Testamento, deparamo-nos constantemente com nomes de grupos que nos são estranhos: fariseus, saduceus, escribas, herodianos, zelotes, essênios, gentios, publicanos… Cada um desses termos descreve uma realidade social, política ou religiosa bem definida. Conhecê-los não é apenas curiosidade histórica — é a chave para compreender as palavras de Jesus, os seus conflitos e a sua missão.
Os grandes grupos religiosos judaicos
Os Fariseus
O nome provavelmente deriva do hebraico perushim, “os separados”. Os fariseus eram um movimento leigo de grande influência popular, empenhado em viver a Torah com rigor absoluto no quotidiano — não apenas no Templo.
Acreditavam na ressurreição dos mortos, nos anjos e numa tradição oral (a “Torá oral”) tão vinculativa quanto a escrita. Eram os grandes mestres das sinagogas espalhadas pelo país, e a sua influência ultrapassava em muito a dos sacerdotes.
No Novo Testamento aparecem frequentemente em conflito com Jesus — não por serem “o mal”, mas por defenderem uma interpretação da Lei que Jesus desafiava. Ironicamente, Paulo de Tarso era fariseu, e o próprio judaísmo rabínico moderno descende em grande parte desta tradição.
Palavras-chave: Ressurreição dos mortos · Torá oral · Sinagogas · Grande influência popular
Os Saduceus
Aristocracia sacerdotal associada ao Templo de Jerusalém. O nome pode derivar de Zadoque, o sumo sacerdote de Salomão. Controlavam o Sinédrio (o supremo conselho judaico) e eram os interlocutores políticos do poder romano.
Ao contrário dos fariseus, rejeitavam a ressurreição dos mortos, a existência de anjos e qualquer tradição que não estivesse explicitamente na Torá escrita. Eram conservadores na teologia, mas pragmáticos na política.
Desapareceram completamente com a destruição do Templo em 70 d.C., pois a sua identidade estava totalmente ligada ao culto sacrificial. É com eles que Jesus debate na famosa questão da ressurreição (Mt 22,23-33).
Palavras-chave: Templo de Jerusalém · Sinédrio · Sem ressurreição · Aristocracia sacerdotal
Os Essênios
Um movimento ascético que se retirou do mundo para viver em comunidades separadas, a mais conhecida em Qumrã, junto ao Mar Morto. Rejeitavam o Templo de Jerusalém por o considerarem corrompido.
Viviam em celibato, partilha de bens e rigorosa pureza ritual. Aguardavam um iminente fim dos tempos e uma guerra cósmica entre os “filhos da luz” e os “filhos das trevas”.
Não são mencionados diretamente nos Evangelhos, mas os Manuscritos do Mar Morto, descobertos em 1947, pertenciam quase certamente a esta comunidade — e revolucionaram o nosso entendimento do judaísmo do século I.
Palavras-chave: Qumrã · Manuscritos do Mar Morto · Ascetismo · Esperança apocalíptica
Os Zelotes
Um movimento de resistência armada à ocupação romana, inspirado pelo “zelo” de Fineias e dos Macabeus. Para os zelotes, pagar impostos a Roma era uma traição a Deus, o único rei legítimo de Israel.
Foram eles os principais protagonistas da Grande Revolta de 66-70 d.C., que culminou na destruição de Jerusalém e do Templo. Alguns resistiram até 73 d.C. em Masada.
Entre os doze apóstolos de Jesus estava Simão, o zelote (Lc 6,15) — o que é historicamente fascinante, pois Jesus também chamou Mateus, um publicano ao serviço de Roma. O grupo reunia inimigos mortais.
Palavras-chave: Resistência armada · Anti-Roma · Grande Revolta 66-70 d.C. · Masada
Funções e profissões religiosas
Os Escribas
Os escribas (grammateis em grego, sofrim em hebraico) eram os especialistas no estudo, cópia e interpretação da Lei de Moisés. Não eram um partido religioso, mas uma classe profissional — uma espécie de “juristas da Torah”.
A sua formação era longa e exigente. Podiam pertencer a qualquer grupo (havia escribas fariseus e saduceus), mas a maioria estava alinhada com os fariseus. Tinham autoridade para emitir pareceres legais e ensinar nas sinagogas.
Nos Evangelhos, a expressão “os escribas e os fariseus” aparece quase como um bloco. Jesus critica-os por colocarem a letra da lei acima do seu espírito, e por se servirem da sua autoridade para impressionar em vez de servir.
Os Sacerdotes e o Sumo Sacerdote
Os sacerdotes (hiereis) eram descendentes da tribo de Levi — especificamente da família de Aarão. A sua função era presidir ao culto no Templo de Jerusalém: os sacrifícios, as festas, a liturgia.
No topo da hierarquia estava o Sumo Sacerdote (archiereus), o único autorizado a entrar no Santo dos Santos uma vez por ano, no Yom Kippur. Era também o presidente do Sinédrio. No tempo de Jesus, o sumo sacerdote era Caifás — nomeado, ironicamente, pelos romanos.
Os sacerdotes comuns viviam espalhados pelo país e iam a Jerusalém por turnos. Muitos eram pobres; a riqueza concentrava-se nas grandes famílias sacerdotais alinhadas com os saduceus.
Grupos definidos pela relação com a Lei ou com Roma
Os Gentios
Do latim gentes, “nações”. Na perspetiva judaica, todos os que não faziam parte do povo de Israel eram “gentios” — independentemente da sua cultura, língua ou religião.
No judaísmo, os gentios podiam relacionar-se com Israel de formas diferentes: os “tementes a Deus” frequentavam as sinagogas sem se circuncidar; os prosélitos convertiam-se plenamente ao judaísmo.
Para Paulo, a grande novidade do Evangelho era precisamente que em Jesus “não há judeu nem grego” (Gl 3,28) — a salvação abria-se a todos os gentios sem necessidade de se tornarem judeus primeiro. Esta questão foi o centro das primeiras tensões na Igreja primitiva.
Os Publicanos
Os publicanos (telonai) eram coletores de impostos ao serviço de Roma — ou mais frequentemente, contratados por Roma para cobrar impostos nas estradas e mercados. O sistema incentivava a corrupção: o cobrador ficava com o que excedesse o valor fixado.
Eram profundamente desprezados pelos judeus piedosos: colaboravam com o ocupante romano e estavam em contacto constante com gentios, tornando-se ritualmente impuros. Eram colocados na mesma categoria que pecadores e prostitutas.
Jesus escandalizou ao chamar Mateus (um publicano) como apóstolo e ao comer na sua casa. A parábola do fariseu e do publicano (Lc 18) inverte radicalmente as expectativas sociais de quem está mais próximo de Deus.
Os Herodianos
Apoiantes da dinastia de Herodes — a família que governava sob supervisão romana. Não eram propriamente um partido religioso, mas um grupo de influência política favorável à colaboração com Roma.
Curiosamente, os Evangelhos registam que fariseus e herodianos se uniram para “apanhar Jesus em alguma palavra” (Mc 12,13) — dois grupos normalmente antagónicos, unidos pela ameaça que Jesus representava para as suas posições.
Os Samaritanos
Os samaritanos eram habitantes da antiga região do Reino do Norte, misturados com povos pagãos após a conquista assíria (721 a.C.). Tinham a sua própria versão da Torah e o seu próprio templo — no monte Garizim, e não em Jerusalém.
Os judeus da Judeia e Galileia olhavam para eles com desprezo e suspeita: eram “meio-judeus”, misturados, com um culto considerado impuro. A hostilidade era mútua e quotidiana.
É neste contexto que a parábola do “Bom Samaritano” e o encontro com a samaritana (Jo 4) ganham toda a sua força subversiva: Jesus escolhe precisamente o inimigo mais próximo como modelo de amor ao próximo.
Existem ainda hoje?
A maioria destes grupos desapareceu com a destruição de Jerusalém em 70 d.C. Os saduceus extinguiram-se com o Templo. Os zelotes foram derrotados militarmente. Os essênios desapareceram da história.
Os fariseus, porém, sobreviveram e transformaram-se: o judaísmo rabínico moderno — o judaísmo praticado hoje em todo o mundo — é o seu herdeiro direto. As suas sinagogas e a sua Torá oral (codificada no Talmude) tornaram-se o novo centro da identidade judaica depois da perda do Templo.
Os samaritanos existem ainda: uma pequena comunidade de cerca de 800 pessoas vive hoje em Israel e nos territórios palestinianos, preservando os seus ritos milenares — talvez o grupo mais antigo desta lista com continuidade ininterrupta.
Quanto a gentios e escribas: são termos teológicos que continuam a ser usados no contexto cristão, mas já não descrevem grupos sociais vivos — são antes categorias interpretativas para ler as Escrituras.
Fontes de referência: Josefo, Antiguidades Judaicas e Guerra dos Judeus; Manuscritos do Mar Morto; E.P. Sanders, Judaism: Practice and Belief; N.T. Wright, The New Testament and the People of God.


