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Amor de Deus

Precisas de um Evento para Amar o Teu Irmão?

Ricardo Teixeira

Precisas de um Evento para Amar o Teu Irmão?

Há uma cena que se repete com regularidade na vida de muitas igrejas: um encontro especial, uma conferência, um retiro ou uma noite de louvor. O ambiente é intenso. Há centenas de pessoas reunidas. A música envolve. O orador fala com convicção. Os corações ficam “em chamas”. Os participantes saem com promessas e resoluções: vou ligar para um irmão esta semana, vou ser mais presente, não vou carregar os meus fardos sozinho.

E depois, passados poucos dias, a vida retoma o seu ritmo habitual.

Não é um fenómeno novo. Mas talvez seja altura de fazer uma pergunta desconfortável: se precisamos de um evento para agir como cristãos, o que é que isso diz sobre a nossa fé?


A Questão que a Emoção Não Responde

Não há nada de errado com encontros de irmãos. A comunhão, o louvor conjunto, o ensino partilhado — tudo isso tem fundamento bíblico. O autor de Hebreus exorta precisamente a não abandonarmos “a nossa própria reunião” e a estimularmo-nos “mutuamente ao amor e às boas obras” (Hb 10:24-25).

O problema não é reunirmo-nos. O problema é a função que atribuímos a essas reuniões.

Quando um encontro se torna o motor da vida cristã — o momento em que o crente recebe o combustível emocional para agir — algo está invertido. A pergunta socrática que vale a pena fazer é esta: o que acontece quando esse combustível se esgota? E mais fundo ainda: se o amor ao próximo depende de um estado emocional, de que natureza é esse amor?


Êxodo 18 e o que Jetro Realmente Disse

É comum usar a passagem de Êxodo 18 como mote para reflexões sobre comunhão e apoio mútuo. Jetro observa o seu genro Moisés a julgar o povo do amanhecer ao anoitecer, e aconselha-o: identifica homens capazes, tementes a Deus, íntegros, que odeiem a ganância, e delega-lhes responsabilidades (Êx 18:21).

A lição que Jetro tira é de ordem e sabedoria estrutural, não de afeto espontâneo. Ele não diz a Moisés: vai a um encontro de líderes e deixa-te inflamar para depois agires. Diz-lhe: organiza, delibera, estrutura. A solução de Jetro é racional, sistemática e duradoura — não depende do estado de espírito de ninguém.

Há aqui uma ironia silenciosa: a passagem frequentemente usada para mobilizar emocionalmente homens a cuidarem uns dos outros é, precisamente, uma passagem sobre racionalidade aplicada à vida comunitária.


O que a Escritura Diz sobre a Origem da Mudança

A questão central do evangelicalismo histórico — e da Reforma em particular — é: de onde vem a transformação genuína do crente?

A resposta bíblica é clara e não admite ambiguidade. Paulo escreve aos Romanos: “Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Rm 12:2). O verbo grego metamorphoústhe — do qual deriva a palavra “metamorfose” — está na voz passiva: é algo que acontece ao crente, não algo que o crente produz através de um esforço emocional. E o agente? A renovação da mente pela Palavra.

Tiago é ainda mais direto: “Sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes” (Tg 1:22). Mas note-se o contexto: Tiago não apela à emoção para motivar a obediência. Apela à natureza da Palavra, que é como um espelho — revela o que somos e o que deve mudar (Tg 1:23-25). O crente que persevera na Palavra perfeita da liberdade e a pratica, esse será bem-aventurado.

E Ezequiel, antecipando o que seria a obra do Espírito na nova aliança, cita as palavras de Deus: “Tirarei o coração de pedra da vossa carne e vos darei um coração de carne. Porei o meu Espírito dentro de vós e farei que andeis nos meus estatutos” (Ez 36:26-27). Repara: farei que andeis. Não vos entusiasmarei para que queirais andar. A iniciativa e a sustentação são divinas, não emocionais.


O Ciclo do Emocionalismo

O emocionalismo na vida da fé funciona segundo um ciclo bastante previsível:

  1. O crente vive a sua rotina espiritual com tibieza.
  2. Ocorre um evento — uma conferência, um retiro, uma mensagem poderosa.
  3. O crente é “inflamado”: resolve, promete, compromete-se.
  4. Os dias passam. A emoção desvanece.
  5. A tibieza regressa — até ao próximo evento.

Este ciclo pode durar anos, décadas, ou uma vida inteira, sem que haja crescimento real. O crente acumula experiências emocionais intensas, mas a sua vida quotidiana, os seus padrões de relacionamento, a sua fidelidade na oração e na Palavra, permanecem essencialmente inalterados.

O problema deste modelo não é apenas prático — é teológico. Pressupõe que o crente é movido primariamente por sentimentos, quando a Escritura pressupõe que o crente é movido primariamente pelo Espírito através da Palavra. Confunde entusiasmo com fruto. Confunde intenção com caráter.


Fé Madura Não Precisa de Ser Reinflamada

Há uma diferença importante entre um crente que sente vontade de ajudar um irmão depois de uma noite emocionante e um crente que vai ter com um irmão porque isso é simplesmente o que um seguidor de Cristo faz.

O primeiro depende das circunstâncias. O segundo depende do caráter.

O caráter cristão — o que a Escritura chama de fruto do Espírito (Gl 5:22-23) — não é produzido por eventos. É cultivado no silêncio da disciplina espiritual, na leitura meditada da Palavra, na oração consistente, na confissão regular dos pecados, na submissão constante ao Senhor. Estas práticas não são espetaculares. Não produzem fotografias partilháveis nem momentos de choro coletivo. Mas são as que moldam, ao longo do tempo, homens e mulheres com caráter genuíno.

Paulo descreve o processo em Filipenses 4:11 de uma forma que devia dar-nos que pensar: “Aprendi a estar contente em qualquer estado em que me encontre.” A palavra aprendiémathen em grego — indica um processo de aprendizagem por experiência acumulada. A contentamento cristão não veio de um evento. Veio de anos de caminhada com Deus em todas as circunstâncias.


O ADN do Novo Nascimento

A linguagem do “ADN” é contemporânea mas teologicamente pertinente. O novo nascimento não é um evento emocional — é uma nova natureza. João escreve: “Nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos” (1 Jo 3:14). O amor fraternal, segundo João, não é uma meta a alcançar mediante motivação externa — é uma evidência do novo nascimento.

Isto levanta uma questão pastoral séria: se um grupo de homens precisa de ser regularmente reinflamado por eventos para amar e cuidar uns dos outros, que conclusão devemos tirar? A resposta pode ser incómoda, mas é necessária: ou os homens ainda não compreenderam o que significa ter o Espírito de Deus habitando neles, ou a sua vida espiritual quotidiana está tão empobrecida que o Espírito está sistematicamente a ser contristado.

Nenhuma destas hipóteses se resolve com mais encontros. Ambas se resolvem com mais Bíblia, mais oração genuína, e mais exposição honesta à graça de Deus.


O Lugar Legítimo dos Encontros

Dito tudo isto, é necessário ter equilíbrio. Os encontros entre irmãos são bons. Celebrar o que Deus faz na vida de uma comunidade é bíblico. O problema não é reunirmo-nos — é atribuir aos encontros um papel que pertence à Palavra e ao Espírito.

Um encontro pode ser o ponto de partida de uma reflexão que levará o crente de volta à Escritura. Pode ser o contexto em que um irmão ouve pela primeira vez uma verdade que o convoca à mudança. Pode ser uma expressão do fruto já existente numa comunidade saudável.

Mas não pode ser o motor da vida cristã. Não pode substituir a disciplina pessoal. Não pode compensar semanas de negligência espiritual com uma noite de intensidade emocional.


Uma Pergunta para Terminar

Se amanhã não houver nenhum encontro, nenhuma conferência, nenhuma noite de louvor — vais mesmo assim procurar um irmão, perguntar como ele está, orar com ele?

Se a resposta honesta for não sei ou provavelmente não — então o problema não é falta de eventos. É falta de transformação.

E a transformação não vem de uma noite emocionante. Vem do Espírito de Deus, operando pela Sua Palavra, num coração que deliberadamente se coloca sob ela — dia após dia, semana após semana, ano após ano.

“A tua palavra é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho.” (Sl 119:105)

Não uma tocha que acende de vez em quando. Uma lâmpada. Constante. Fiel. Suficiente.