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Amor de Deus

Salmo 2: A ira que se vence com beijos

João Antunes

A ira que se vence com beijos

O Salmo 2 é cantado a várias vozes, em palcos diferentes onde poesia e profecia se misturam. Nos primeiros versos ouvimos o rugido dos homens contra o Deus que os criou — “contra o Senhor e contra o Seu Ungido”. Logo depois o cenário de rebelião é trocado pelo etéreo: as armas calam-se ao ouvir as palavras do Pai — “ungi o meu Rei” (v.6).

Sobre os que na terra se fazem reis, o Pai colocou outro Rei: o Filho. As vontades dos homens nada podem perante a vontade de Deus. Surge então a voz do próprio Filho, lembrando as palavras que na eternidade ouviu do Pai e que atravessam as eras — do início ao fim dos tempos — em vitória e justiça (v.7-9).

Mas em vez de entregar os culpados ao castigo, o Salmo termina num apelo pungente para que troquemos a revolta pela rendição e o ódio pelo amor (v.10-12). Tal como em muitos salmos, o último verso surge como coroa do hino.


1. Por detrás da ira

A imagem de um Deus irado pode causar urticária a espíritos mais libertários, se confundida com uma birra de criança mimada. Mas a história não começa com um Deus que exige — começa com homens que reclamam. Ao Deus que cria, a criatura reagiu em revolta. A ira de Deus revela-nos o que somos de facto: inimigos do bem.

Contudo, se o Salmo 1 termina em castigo, o Salmo 2 oferece o perdão. Em vez de trovejar dos céus uma raiva sem freio — mais do que merecida, diga-se —, o salmo aponta-nos outra direcção: o beijo.


2. Por detrás do beijo

Quando os olhos de quem quer ser rei encontram o único Rei eterno, o caminho é a rendição. Mas o beijo exigido é tanto submissão como devoção. Em vez de súbditos encolhidos, o Filho abraça como amigos os que antes O odiavam.

A relação entre os homens e Deus é uma urdidura de temor e amor, de obediência e reconciliação. Como escreveu Spurgeon: “Temor sem alegria é tormento, e alegria sem temor santo é presunção.”

E em vez de beijar o ar, beijaremos o Deus que se fez como nós. Se a divindade do Filho nos faz tremer — é um fogo demasiado quente para não nos queimarmos n’Ele —, Ele fez-Se carne para nos suster.


Oração:

As nossas vontades odeiam outro rei além de nós, mas na cruz Jesus conquistou o nosso querer. Pela Tua Palavra O declaraste Rei e pela Tua Palavra corações revoltosos se rendem a Ele. Louvamos Aquele que se humilhou para nos permitir a distância de um beijo! Ajuda-nos a viver todos os dias com alegria e tremor aos pés do Rei.