Este salmo foi escrito por David, rei em fuga e pai ferido pela rebelião do próprio filho, “quando fugia de Absalão, seu filho”, como indica o título do salmo. Se a história é narrada em 2 Samuel 15–18, é aqui, no Salmo 3, que encontramos o coração de David aberto diante de Deus. Quando lhe faltou o chão, encontrou firmeza na oração.
Ainda que Absalão ocupasse o trono de Jerusalém, era Deus quem continuava a reinar do seu santo monte. Quando não encontramos ouvidos humanos que nos acolham, o Evangelho revela-nos um Pai que ouve. E quando a realidade parece afirmar que já não há salvação para nós, podemos responder como David: “A salvação pertence ao Senhor” (v. 8).
Esta é a vida de um homem que, no meio da crise, voltou o coração para Deus e encontrou n’Ele o seu refúgio.
“Com a minha voz clamei ao Senhor, e ele ouviu-me desde o seu santo monte.”
Salmos 3:4
Clamar até que a voz doa
Nos dias tranquilos, as nossas orações podem seguir um ritmo silencioso e quase automático. Mas quando as ondas nos engolem, as palavras ganham volume. Há momentos em que simplesmente não conseguimos permanecer calados diante de Deus.
David não esconde a sua angústia. Ele clama. Grita. Derrama diante de Deus aquilo que lhe vai na alma.
Jesus também conheceu esse clamor. No Getsêmani, a sua oração foi acompanhada de grande clamor e lágrimas. A oração não precisa de ser sempre silenciosa, contida ou cuidadosamente formulada. Há momentos em que clamar diante de Deus é precisamente a expressão mais honesta da nossa fé.
Apesar de ser uma prática comum nos cultos cristãos, talvez poucos de nós façam isso quando estão sozinhos. Talvez valha a pena experimentar: fechar a porta, ficar a sós com Deus e dizer em voz alta aquilo que o coração já não consegue guardar.
Clamar com a certeza de que somos ouvidos
A morte não responde. Mas o nosso Deus está vivo e ouve.
A certeza de que Deus é um Deus vivo está inseparavelmente ligada à certeza de que Ele fala e responde. Nem sempre da forma que esperamos, nem sempre no momento que desejamos, mas Deus não é indiferente ao clamor dos seus filhos.
Um dia, ao conversar sobre este assunto com o meu filho mais velho, perguntei-lhe de que formas Deus havia respondido às pessoas nas Escrituras. Ele lembrou-se dos sonhos e das revelações que encontramos na Bíblia, como quando Deus avisou José para fugir com Maria e Jesus da ameaça de Herodes.
Continuei a provocá-lo: “E de que outra forma Deus falou?”
A resposta foi simples: “Ou então quando Jesus falava com as pessoas, em carne.”
É uma resposta que merece ser guardada.
Independentemente das nossas histórias, das perguntas que fazemos e das respostas que procuramos, Deus revelou-se de forma plena em Cristo. A Palavra tornou-se carne e habitou entre nós. E temos essa revelação preservada nas páginas das Escrituras.
Por isso, quando clamamos, não clamamos para o vazio. Clamamos a um Deus que ouve.
Uma oração
Senhor, louvamos-Te porque ouves e respondes.
Quando ficarmos mudos perante a dor, não nos abandones. Quando não soubermos sequer como orar, recebe o clamor do nosso coração.
Dá-nos a esperança que perdemos. Desperta aquilo que em nós se tornou inerte e renova-nos pelo Teu Espírito.
E quando nos faltar o chão, lembra-nos que Tu continuas a ser a nossa rocha, o nosso refúgio e a nossa salvação.
Porque a salvação pertence ao Senhor.
